Sumário

Dedicatória ………………………………………………………………..5
Apresentação …………………………………………………………….11

Capítulo I
O Coliseu. ……………………………………………………………………15
O Gira Mundo. …………………………………………………………….18
Abrem-se as Cortinas do Grande Show da Vida. …….19
A Viagem. …………………………………………………………………….20
Lar, Doce Lar. ……………………………………………………………….21
A Herança Maldita. …………………………………………………….22
O Sentinela Sempre Alerta. ………………………………………23

Capítulo II
Conduzindo o Seu Próprio Destino. …………………………….25
Lobo em Pele de Cordeiro. …………………………………………….26
A “Síndrome” de Lolita. …………………………………………………27
“Desfolhando a Margarida… …………………………………………28
Coração Guerreiro – Mente Sã, Carro-Forte. ……………..29
Os Três Mosqueteiros. …………………………………………………….32

Capítulo III
Deus Ajuda a Quem Cedo Madruga. …………………………….34
O Dia Seguinte. “O Day After”. …………………………………….43

Capítulo IV
A Caridade. ………………………………………………………………….48
A Maçã Proibida. …………………………………………………………50
O Fugitivo. …………………………………………………………………….51
Quando Um Grande Amor se Faz. ……………………………..52

Capítulo V
Projeto Lolita. ………………………………………………………………56
A União Faz a Força ……………………………………………………..61

Capítulo VI
Da Terra, o Trigo; do Trigo, a Vida. ……………………………..63
Cicatrizes de Infância. …………………………………………………65
A Oferenda. …………………………………………………………………….66
A Vingança da Ninfeta. …………………………………………………72

Capítulo VII
O Grande Mistério da Vida. …………………………………………78
O Pão da Vida. …………………………………………………………………84

Capítulo VIII
O Sonho Sonhado no “Vale Encantado”. …………………….87
Vamos Passear na Floresta, Enquanto… …………………….90

Capítulo IX
O Despertar. …………………………………………………………………….98
Coração de Mãe Não se Engana Nunca. ……………………..103
O Grande Script. …………………………………………………………….105
Nasce uma Estrela. ………………………………………………………..106
Após a Bonança… …………………………………………………………….109
Há um Tempo Para Tudo, aos Olhos do Altíssimo. …….111
Saudade que Mata. …………………………………………………………..112

Capítulo X
Ascensão de Davi na Grande Virada. …………………………….117

Capítulo XI
Todo Sábado é Dia de Festas. …………………………………………129
A Festa de Bodas de Ouro. ………………………………………………130
Nem Tudo que Reluz é Ouro… …………………………………………131
O “Bota-Fora” do Dia Seguinte. ……………………………………..133

Capítulo XII
Um Sinistro Personagem. ………………………………………………..139
Um mergulho no Tempo: Há Muitos Anos Atrás…………..139
Amizade Cristalizada Pelo Tempo. …………………………………143
Caminhos de Muitas Vias. ………………………………………………..143
Um Brinde à Vida. ………………………………………………………………148

Capítulo XIII
Por Quem os Sinos Dobram. …………………………………………….152
O Despertar dos Sentidos. ………………………………………………..153
De Volta Para o Presente. ………………………………………………..156
Desvendando Mistérios. …………………………………………………..158

Capítulo XIV
A Fé que Move Montanhas. ………………………………………………..174
Fé é a Chave que Abre as Portas do Impossível ………………176

Capítulo XV
Tudo Pelo Ouro. …………………………………………………………………….184

Capítulo XVI
Déjà vu… ………………………………………………………………………………..206

Capítulo XVII
A Raposa de Olho no Galinheiro. ………………………………………220
Um Turbilhão de Emoções. …………………………………………………226

Capítulo XVIII
Envolto numa teia perigosa. ……………………………………………….231

Capítulo XIX
Surge um novo personagem… ……………………………………………..243

Capítulo XX
De Volta ao Paraíso na Terra. ……………………………………………..253

Capítulo XXI
Um Prêmio Inesperado. ……………………………………………………….263

Capítulo XXII
O amor está no ar, reacendendo velhas paixões. …………….269
O Acerto de Contas. ………………………………………………………………274
De Volta para a Região dos Lagos. ……………………………………….276

Capítulo XXIII
A Força da Fé Vence Tudo… ……………………………………………….278
A Troca. ………………………………………………………………………………..287
O Acordo… ……………………………………………………………………………295

Capítulo XXIV
Olhos Vigilantes ………………………………………………………………301
O “Presunto”. ……………………………………………………………………303
Enfim, nos braços da amada. …………………………………………305

Capítulo XXV
Hasta La Vista …………………………………………………………………….310

Capítulo XXVI
Sempre Foi Pelo Ouro… e Sempre Será… ……………………….315

Capítulo XXVII
Pelo seu Povo, Ele Atravessou Mares e Desertos. ……….324
Abrigando com amor… …………………………………………………….329

Capítulo XXVIII
Os Frutos da Árvore da Vida…………………………………………….330
A Vida continua pulsando nos corações… ……………………..333

Capítulo XXIX
Dançando Para não Dançar. ……………………………………………….334

Capítulo XXX
O Sonho de Uma Noite de Verão em Paris. ………………………337
Um, Dois, Três, Sentido!……………………………………………………….340

Apresentação 

Escrever este livro foi um exercício de tempo e relutância.  Quando, finalmente resolvi fazê-lo, não tinha a mínima ideia  de chegar até aqui. A intenção era um Conto na linha de  Dublinenses, de James Joyce, já que os locais de ambientações  – a cidade de Dublin e o bairro onde eu morei e palco central  das ações aqui narradas -, em muito se assemelham,  resguardadas as devidas diferenças. Ao iniciar os escritos,  citações e os demais elementos da obra, naturalmente, fui  acobertado por uma nuvem de fantasmas, presos nas  lembranças de outrora naquele rico cenário. Ao abordar o fato  gerador da obra – fio condutor da narrativa -, fui perdendo as  rédeas do fabulesco episódio. Por conseguinte, os espectros  ambientais, assumiram o controle, demarcando territórios e  pautando as ações. Solenemente, fui conduzido pelos atores  dessa magistral peça, cujo anfiteatro que os abrigou, ainda  resiste imponente e altivo, como testemunha perene dos  eletrizantes episódios escritos pela vida. 

De início, o livro dá a falsa impressão de um documentário.  Mas, é puro cenário situado na história. Assim, como não há  de se falar de uma pessoa sem descrevê-la, não há como contar  uma história, sem situá-la no tempo e espaço. Daí, a razão das  situações geográficas e temporais, com fatos que marcaram  aquela fervorosa época. Após essas ilustrações, depois da  página 20, a narrativa entra no cerne da questão – daquilo do  que trata a obra. Que versa sobre a epopeia de uma família de agricultores do interior mineiro, que migra para o Rio de  Janeiro. Aqui são recebidos e alocados por um rico  comerciante, eivado de interesses sórdidos em relação à filha  deles, Cristiane, de treze anos, envolta num intrincado  contexto de complexo de Lolita dos anos 70. 

A primeira parte trata dessa instigante trajetória. A segunda  parte dá continuidade à saga familiar, com o pai, Othoniel,  incomodado com a embaraçante situação, troca de emprego,  indo trabalhar como motorista de carro-forte numa empresa de  transporte de valores. Lá, conhece os seus “Midas”, o diretor  de Logística, Júlio Salustiano e o seu Adjunto, “Genival” peça  fundamental e determinante no desenrolar das ações que  desemborcam num primoroso e intrincado projeto conector de  vidas, paixões, e muitas aventuras – fundamentando com  propriedade o título da obra. 

Nota: esta é uma obra baseada em fatos reais, interposta de  ficção, conforme a visão do Autor, cujos nomes de locais e  pessoas foram trocados, bem como alguns fatos e situações  que pudessem revelar suas identidades. 

O Autor. 


Primeira Parte


CAPITULO I


O COLISEU. 

Ascensão e queda de um império criado pela arte e tombado pela vilania  dos poderosos. O homem, o ser maior do Universo – com sua soberba  imaginação – tudo pode conceber em conformidade com o seu caráter e  moralidade. 

Impávido como uma fortaleza medieval, o antigo prédio de  dois pavimentos, erguido no começo do século XIX,  imponentemente vestido de azul e branco, tal qual uma  sentinela imóvel, observa a passagem do tempo que corre à  sua frente pela grande rodovia de aço e concreto. Suas colunas  de pedras, sustentáculos de suas paredes, emolduram um  quadro vigoroso construído por mestres na arte da edificação.  O tempo deixou sua marca secular em sua concepção  arquitetônica, cujos desgastes das suas formas neoclássicas  foram habilmente restaurados, resgatando, assim, a beleza  forjada na rocha a amparar e acolher, em seu interior, os seres  da criação divina que se aglomeravam todas as manhãs na  disputa pelos saborosos alimentos saídos dos fornos  abrasadores da sua producente fábrica de pães. 

Por décadas, fora ele testemunha das vicissitudes temporais  e palco natural dos atores da grande comédia humana, escrita  pelo grande roteirista do universo. À sua volta, o progresso  transfigurou o cenário quase bucólico e sombrio,  características de área geopolítico-militar que, entrecortada  por vias vicinais de grande movimento, interligou-se à artéria  meca do poder empresarial e residencial da Zona Oeste do Rio  de Janeiro, através do grande corredor expresso, cujo nome,  foi herdado do evento olímpico ocorrido na cidade, no ano de  2016.

Em sombrio contraste com os tempos pretéritos, suas  portas hoje jazem cerradas sobre o frio solo, encortinando um  vibrante passado de efervescentes e calorosos sentimentos. A  grande rodovia cortou a visão da igrejinha onde o sino  badalava,  

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anunciando a hora do ângelus, conclamando os fiéis a orar e  purgar pelos seus atos pecaminosos – diante do velho vigário  que tudo sabia de sua congregação – guardando consigo os  segredos de confessionário, cujos medonhos atos, dos  “respeitáveis” membros que formavam os pilares da sua  Congregação, davam sentido aos dízimos mensais,  compensando suas falhas mundanas e afrontas ao Santo  Evangelho. 

Ao lado da igrejinha e frontal para a rua, o imponente  prédio de grande envergadura nas cores branca e verde água,  construído em 1925, que abrigava o Cine São José – palco de  eventos culturais e artísticos – há muito apagara seus refletores  e emudecera os projetores. Por lá, desfilaram belos e épicos  filmes: “O Ébrio”, “Os 10 Mandamentos”, “Quo Vadis”,  “Sansão e Dalila”, “Ben Hur”, “O Candelabro Italiano” e bons  faroestes com atores como John Wayne, Burt Lancaster, Kirk  Douglas e tantos outros. Foi, por décadas, o ponto de encontro  e de entretenimento dos moradores e das circunvizinhanças.  Mas, como se deu com a maioria das salas de projeção pelo  país, foi fechado, dando lugar ao saudosismo, ostracismo e à  indiferença dos provedores da ignorância desumana a serviço  da contracultura. 

O outrora majestoso palco dos eventos aqui narrados era  composto pelo prédio central onde funcionavam: padaria,  escritório, centro de distribuição e o conjunto de prédios  vizinhos, todos de propriedade de Elizeu Paschoal Feitosa.  Homem de porte elegante, que se destacava pela estatura alta, em torno de 1.85m, cor branca, físico forte na faixa de 120kg,  cabelos grisalhos e aparência germânica. Parecia estar na faixa  etária dos seus vigorosos setenta e poucos anos. De trato  sereno e calmo, chamavam-no de “Coronel” por ele afirmar  ser oficial reformado do exército, fato que ninguém nunca  atestou. Parecia ser mais uma forma usual e bajuladora das  pessoas humildes para com os mais abastados do meio  habitual. 

Era ele, descendente da antiga família Paschoal Feitosa,  oriunda de Portugal e que se instalara no Brasil no começo 

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do século XIX, na antiga fazenda Sapopemba, onde fizeram  fortuna com a produção de lavoura. Herdeiro da antiga e  tradicional família, fixou-se no bairro do Realengo, onde  prosperou e estendeu seus domínios até Cel. Magalhães  Bastos, atuando nos segmentos fabril, alimentício e  imobiliário. Estava quase sempre na companhia dos seus dois  filhos homens, de idades medianas e de aparente  sociabilidade, que dividiam, entre si, a administração dos  negócios da família. 

Nos anos 80, fui locatário de uma de suas lojas na  exploração de uma pequena fábrica de roupas, vizinha à  padaria. Por conseguinte, mantinha contato quase que diário  com o meio em volta. Sendo natural expectador e testemunha  ocular dos muitos eventos ocorridos naquele épico local – uma  vez que, além de ali laborar – residia nas proximidades desde  tenra idade. 

Era bem conhecido nas redondezas, em razão do trabalho  social que exercia junto à Igreja Matriz que frequentei na  adolescência, vindo a integrar o grupo de trabalho e  evangelização “Os Congregados Marianos” – da Ordem de  Nossa Senhora Mãe de Jesus – compostos por jovens de ambos  os sexos. Cuidávamos da interação com os serviços de apoio  religiosos e mantenedores das obras sociais da comunidade. 

Trabalhando, na época, num grande conglomerado de  comunicação no Rio de Janeiro, era o encarregado dos  serviços de relações públicas, tratando da divulgação e  promoção dos eventos comunitários da paróquia, cujo maior  evento anual era a Feira das Ruas, que transcorria nos redutos  e entornos da Igreja Matriz e durava quatro semanas de  festividades. O propósito era a venda das prendas, bebidas,  doces e guloseimas, arrecadadas junto ao comércio local e, aos  fiéis, cujo dinheiro era revertido para as obras de construção  do Templo que, por motivos óbvios, nunca se findava. Essas  feiras, juntamente com as quermesses nos últimos sábados e  domingos de cada mês, proviam fundos que atendiam as  despesas com a Igreja Matriz, a Casa Paroquial e as estripulias  do velho vigário, que tinha por hábito visitar suas paroquianas  mais carolas – carentes da palavra e do conforto  “espirituoso” que emanava do garboso e envolvente visitante  – mensageiro do Senhor. 

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Por todos aqueles anos, eu nunca soube o quanto era  arrecadado e os fins destinados. Éramos uma grande máquina  de proventos e irradiação eucarística, verdadeiros “soldados”  do Senhor, como dizia o velho pároco irlandês, Mr. John (que,  em homenagem póstuma, deram seu nome à Estação  Rodoviária local do BRT – Bus Rapid Transit) e seus  agregados “bonvivants”, que se dividiam entre as atividades  ecumênicas e as relações nem sempre ortodoxas para com seus  pares de sexo oposto, da mesma irmandade e vizinhança beata,  que se diziam servas do Senhor. Restou saber qual desses era  melhor servido. 

O GIRA MUNDO. 
“Os ventos de uma nova era, surfando sobre os rios, mares e oceanos numa  onda avassaladora de novos conceitos e mudanças por liberdades.”

Estávamos nos anos dourados das décadas de 60/70, anos  das mudanças e acontecimentos que transmutaram os  conceitos mundiais: nos Estados Unidos, o festival de  Woodstock, ditando a contracultura do sexo, amor e rock and  roll, The Beatles, Rolling Stones, Jimi Hendrix, Janis Joplin,  a ida do homem à Lua, escreviam uma nova página na história  da humanidade. No Brasil, os “Anos Rebeldes”, o golpe  militar, com o famigerado AI-5 ditando o autoritarismo  ditatorial militar e acendendo as chamas de uma nova  consciência nacionalista nas lutas pela democracia, vindo a  culminar com a promulgação da “Nova Constituição Cidadã  de 1988”. 

Na telinha preto e branca, a TV Globo da família Marinho,  com o “plim plim” anunciando: “- No ar, o Jornal Nacional”,  marco do telejornalismo brasileiro. Surgem os reis da  comunicação: $ilvio $antos, – o ex-camelô, Senor Abravanel – com o seu “sorriso Colgate”, enche o Baú da Felicidade. O  velho palhaço Abelardo “Chacrinha” Barbosa, balançando a  pança e  

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levantando a massa, pergunta a plenos pulmões; “- Vai para o  trono ou não vai.” Nas telinhas ovais e quadradas, a vida imita  a arte nos capítulos das novelas impondo um novo regramento  familiar, trocando a solene mesa de jantar pelo velho sofá da  sala. 

É a televisão se impondo como importante elo difusor da  globalização mundial. Na música, Roberto Carlos ao volante  do seu “calhambeque”, “Manda Tudo Para o Inferno” e  instaura o movimento da Jovem Guarda. O “Mais Que Nada”,  de Sérgio Mendes, mostra ao mundo a ginga brasileira. A  Bossa Nova, de Tom Jobim & Vinicius de Morais, bem como  o Tropicalismo de Caetano, Gal e Gil, dão um novo tom,  colocando o Brasil no magistral Show Business Internacional. 

Salve os festivais musicais da antiga TV Record, revelando  astros e estrelas, abrilhantando o cenário musical. Ah, que  saudade daqueles tempos! Sem Lava a Jato, milícias, balas  perdidas, saidinha de bancos, AIDS, COVID-19 e outras  desgraças que assolam a humanidade. “Essas recordações me  matam…” “Recordar o passado é viver o presente”. Presente  este, que somente nos permite viver o hoje, relembrar o  passado e sonhar com o futuro. São estes os três componentes  de toda uma vida. Embora um deles – futuro – para alguns nem  sempre se insira nessa tríade temporal. 

ABREM-SE AS CORTINAS DO GRANDE SHOW DA VIDA.  
“Descortinando o cenário montado pelas mentes criativas em atuações  pragmáticas.” 

Neste Palco Iluminado – cenário efervescente dos  acontecimentos dessa narrativa – um dos quatro elementos da  natureza crepita brasas fumegantes com sua imensa bocarra  expelindo grandes fornalhas de pães, cujo cheiro inebriante  aguça e estimula os sentidos da “mãe gula”. Freguês habitual  da padaria, já que, além do café matinal, também era  admirador voraz dos  

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seus bolos e lanches que valiam por cada centavo, por diversas  vezes tive a atenção despertada por alguns fatos e incidentes  que passavam despercebidos aos olhos dos demais fregueses  e frequentadores menos atentos. 

Havia, dentre seus funcionários, uma família composta  pelos pais e quatro filhos; sendo dois casais, cuja idade dos  mais velhos beirava entre doze a treze anos e os mais novos,  em torno de cinco a seis anos. Todos franzinos, brancos,  sardentos e desnutridos, de aspecto taciturno e retraídos. Porvárias vezes, observei que a simples aproximação de pessoas  estranhas ao seu meio, causavalhes medo e desconfiança. Ao  menor sinal, saíam correndo para dentro da casa, através de  um beco que levava a uns humildes casebres nos fundos das  lojas contíguas à padaria.  Os pais eram de procedência rural e viviam no interior  mineiro. Ambos Carmenses, naturais de Carmo de Minas. A  mãe, Altina, com trinta anos e o pai, Othoniel, com trinta e  cinco anos, haviam migrado para o Rio de Janeiro em busca  de uma vida melhor. A mulher trabalhava como ajudante geral,  tipo “faz-tudo”, cuidando dos serviços de limpeza da padaria;  e o marido como ajudante de padeiro e vendedor ambulante  nas cercanias, duas vezes ao dia, pelas manhãs e pelas tardes,  empurrando, sobre uma velha bicicleta, um balaio de pães  produzidos nas frias madrugadas nos abrasadores fornos. Sua  estridente buzina “fon-fon” anunciava aos moradores das ruas  vizinhas a chegada dos primeiros alimentos do dia.

 A VIAGEM. 
“A maior aventura de um ser humano.” (Mário Quintana) 

A vinda deles para o Rio de Janeiro mais parece um conto  de fadas às avessas. Agregados de uma família de sitiantes na  zona rural mineira, sobreviviam produzindo agricultura de  subsistência como “meeiros”. Sem apoio e entregues à própria  sorte, mudaram-se para Nova Andradina, Mato Grosso do Sul, 

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aonde penaram por anos e lá tiveram o primeiro casal de  filhos, Othon e Cristiane. Lá, trabalhavam e residiam numa  rudimentar pousada – tipo hotel-fazenda nos arredores da  cidade – como domésticos em condições de semiescravatura,  trabalhando doze horas por dia praticamente em troca de  moradia e comida. Algum dinheiro, somente nas grandes  temporadas, por compaixão de alguns hóspedes. Lá, conheceram o “Coronel” Elizeu e seus familiares que estavam  a passeio por aquelas bandas. A esposa deste, Dona Celeste,  uma senhora de sessenta e oito anos, durante a estadia, teve a  atenção despertada pela presença humilde e sempre solícita da  prestativa serviçal, Altina. Travando conversa com eles, soube  das suas rudimentares condições e do desejo de se mudarem  para uma vida melhor. “Compadecidos”, propuseram trazê-los  em sua companhia na condição de sitiantes, numa de suas  moradias de campo no Rio de Janeiro. 

LAR, DOCE LAR. 
“Você é seu próprio lar”. (Francisco El Hombre) 

Chegando no Estado do Rio de Janeiro, foram assentados  numa pequena chácara da família, nos arredores do Município  de Itaguaí, cidade portuária na Costa Verde, grande centro  produtor, naquela época, de frutas cítricas – laranjas,  tangerinas, limões e outros. De localização aprazível, a  chácara media dois alqueires de boa terra e verdes arbustos.  Uma casa sede em estilo colonial, usada pela família como  casa de campo, dava-lhe ares de poder e altivez. 

Um pouco mais afastado, um modesto casebre fora-lhes  cedido como moradia. Em sua volta, um quintal malcuidado e  tomado por gramíneas e ervas daninhas, sufocava o florescer  da vida campestre, usado como pasto por alguns animais  equinos e caprinos. Um curioso vira-latas, balançando o rabo,  se encarregou das boas-vindas. O novo panorama,  vislumbrado pelos novos moradores, formava um vivo quadro  emoldurado pela  

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natureza, sinalizando novos tempos, de paz, amor e esperança. Em questão de dias, o cenário, antes desprovido de maiores  cuidados, resplandeceu a olhos vistos – o mato e as ervas  daninhas foram substituídos por gramas e flores, formando belos jardins e verdes pastos. A modesta casa foi por eles  reformada com o material ofertado pelos proprietários, que  viram ali uma oportunidade de se beneficiarem da mão-de obra boa e gratuita, matando assim dois coelhos com uma só  cajadada, como diz o ditado popular e a soberba dos  necessitados de ética e brios. 

O novo visual bem cuidado da antiga chácara arrancou do  abastado “Coronel” e de sua esposa suspiros de aprovação e  gentis reconhecimentos. Dali em diante, além de moradia e  dos mantimentos para sobrevivência, a família passou a fazer  jus a um salário, mais um percentual da produção dos frutos  colhidos; condição nunca antes alcançada e que muito os  orgulhava e motivava sobremaneira. Infelizmente, meia  década depois, a chácara foi infestada por uma onda de pragas  que dizimou por completo as plantações, devastando os  pomares e destruindo toda a vida cuidada ao longo dos anos.  Prostrados pelo fatídico evento, os proprietários decidiram  vendê-la para um vizinho criador de vacas leiteiras e alocando  a família de sitiantes numa casa de fundos, vizinha da padaria  de sua propriedade num subdistrito de Realengo, nas cercanias  da Vila Militar, conhecida como Cel. Magalhães Bastos,  bairro limitado com Deodoro e Sulacap, palco e teatro deste  nosso percurso narrativo. 

A HERANÇA MALDITA. 
“A pequena novidade que cada homem extrai da vida custa muito caro e é  a única herança que ele poderá deixar.” (Ernest Hemingway) 

Desde a estadia na antiga chácara produtora de frutas,  Othoniel já vinha apresentando um grave quadro asmático que  lhe provocava falta de ar. Por diversas vezes, fora conduzido  aos postos de saúde, mas nunca fora detectada a causa, nem tampouco, recebera o devido tratamento. Tratava-se com  “garrafadas” e chás de plantas da dita medicina popular; mas  tudo que obtinha, eram pequenos intervalos de melhoras que  mascaravam algo grave que minava sua combalida saúde, dia  após dia. Os suores e o cansaço se traduziam nas profundas  rugas do rosto e na palidez do frágil e esquelético corpo que,  por vezes, era sacudido por convulsivas tosses que o deixavam  penosamente em prostração. 

O trabalho na padaria, embora menos penoso do que o na  roça, era impróprio ao seu atual estado de saúde. Em razão  disso, foi afastado dos serviços e tratado por um longo tempo  no Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes. Na padaria,  foi substituído pelo filho mais velho, Othon. Ao cabo de um  ano de tratamento, obteve a cura definitiva. A causa tinha sido  envenenamento por herbicidas, resultado de anos de manuseio  e pulverização de agrotóxicos sem os devidos cuidados e  proteção. 

Após se restabelecer, Othoniel dedicou-se em adquirir  conhecimentos – se alfabetizando e se profissionalizando  como motorista de veículos pesados, já que tinha experiência  prática, pelos anos que trabalhara na agricultura dirigindo  caminhões, tratores e máquinas de carga. Com a Carteira  Nacional de Habilitação em mãos, passou a trabalhar como  motorista da padaria por alguns anos, fazendo entregas e todas  atividades afins. Como gozava de regalias, tinha acesso ao  veículo de trabalho – uma caminhonete Ford Furglaine, que  usava para o seu bel-prazer e de sua família, fora do  expediente e nos fins de semana. 

O SENTINELA SEMPRE ALERTA.
“Máscaras escondem rostos e feições, mas nunca a desfaçatez de um  olhar.” 

As mudanças fizeram providencial diferença na vida da  família, com os pais, Othoniel e Altina, sempre atentos aos 

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acontecimentos à sua volta. Desde que aceitaram a oferta de  mudança para o Rio de Janeiro e aqui chegaram, ficaram  sempre alertas aos sinais e a tudo que dizia respeito aos seus  filhos. Como bons mineiros, ouviam muito e falavam pouco.  Othoniel combinara com a esposa que ele proveria o sustento  de todos, custasse o que custasse, e ela se encarregaria de  orientar e conduzir a criação e formação dos filhos. Como já  previra, por várias vezes alertou a mulher, dizendo que aquela  beneficiação tinha alguma coisa por trás – coisa esta, que a  cada dia ficava mais clara que água de fonte. Como pai, vivia  entre a cruz e a espada. Tinha plena consciência da vital  importância do apoio do velho matreiro para com sua família  – tudo que tinham e conseguiram até ali, tinha sido graças a  ele; mas, dentro de si, algo o incomodava. Sabia que tudo  aquilo tinha um preço, cuja moeda de troca não estava em  nenhuma registradora ou caixa de banco e, sim, dentro do seu  lar, no seio da sua própria família. 

Certa vez, em confidências com a mulher, ouviu esta dizer  que: “entre os males de porta fora, prefiro ficar com os males  de porta dentro. O diabo está em todo lugar; lá fora a gente se  expõe, aqui a gente se protege. Todo mundo tem uma cruz para  carregar, fazê-la mais leve ou mais pesada é uma questão de  saber escolher a madeira.” Aquelas palavras, vindas de uma  pessoa tão humilde e sofrida como ela, calaram fundo em sua  alma, passando uma mensagem de confiança e segurança que  lhe devolveu as esperanças e o foco em prosseguir nos planos  que há muito vinha traçando.

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CAPÍTULO II


CONDUZINDO O SEU PRÓPRIO DESTINO. 
“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” (Geraldo Vandré) 

Othoniel, incomodado com os rumores que sopravam em seus ouvidos, decidiu, em comum acordo com os familiares, trabalhar noutro lugar, fora daquele ambiente maledicente. Em resposta a um anunciante que o selecionara, compareceu na TransValore S.A. – Empresa Transportes de Valores e Segurança, situada no bairro de São Cristovão, Rio de Janeiro. Após um período de testes e treinamento, foi efetivado como motorista de carro-forte, fazendo parte da “Equipe Bravo 1”.

Sua nova rotina, aos poucos foi…

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