Sumário
Dedicatória ………………………………………………………………..5
Apresentação …………………………………………………………….11
Capítulo I
O Coliseu. ……………………………………………………………………15
O Gira Mundo. …………………………………………………………….18
Abrem-se as Cortinas do Grande Show da Vida. …….19
A Viagem. …………………………………………………………………….20
Lar, Doce Lar. ……………………………………………………………….21
A Herança Maldita. …………………………………………………….22
O Sentinela Sempre Alerta. ………………………………………23
Capítulo II
Conduzindo o Seu Próprio Destino. …………………………….25
Lobo em Pele de Cordeiro. …………………………………………….26
A “Síndrome” de Lolita. …………………………………………………27
“Desfolhando a Margarida… …………………………………………28
Coração Guerreiro – Mente Sã, Carro-Forte. ……………..29
Os Três Mosqueteiros. …………………………………………………….32
Capítulo III
Deus Ajuda a Quem Cedo Madruga. …………………………….34
O Dia Seguinte. “O Day After”. …………………………………….43
Capítulo IV
A Caridade. ………………………………………………………………….48
A Maçã Proibida. …………………………………………………………50
O Fugitivo. …………………………………………………………………….51
Quando Um Grande Amor se Faz. ……………………………..52
Capítulo V
Projeto Lolita. ………………………………………………………………56
A União Faz a Força ……………………………………………………..61
Capítulo VI
Da Terra, o Trigo; do Trigo, a Vida. ……………………………..63
Cicatrizes de Infância. …………………………………………………65
A Oferenda. …………………………………………………………………….66
A Vingança da Ninfeta. …………………………………………………72
Capítulo VII
O Grande Mistério da Vida. …………………………………………78
O Pão da Vida. …………………………………………………………………84
Capítulo VIII
O Sonho Sonhado no “Vale Encantado”. …………………….87
Vamos Passear na Floresta, Enquanto… …………………….90
Capítulo IX
O Despertar. …………………………………………………………………….98
Coração de Mãe Não se Engana Nunca. ……………………..103
O Grande Script. …………………………………………………………….105
Nasce uma Estrela. ………………………………………………………..106
Após a Bonança… …………………………………………………………….109
Há um Tempo Para Tudo, aos Olhos do Altíssimo. …….111
Saudade que Mata. …………………………………………………………..112
Capítulo X
Ascensão de Davi na Grande Virada. …………………………….117
Capítulo XI
Todo Sábado é Dia de Festas. …………………………………………129
A Festa de Bodas de Ouro. ………………………………………………130
Nem Tudo que Reluz é Ouro… …………………………………………131
O “Bota-Fora” do Dia Seguinte. ……………………………………..133
Capítulo XII
Um Sinistro Personagem. ………………………………………………..139
Um mergulho no Tempo: Há Muitos Anos Atrás…………..139
Amizade Cristalizada Pelo Tempo. …………………………………143
Caminhos de Muitas Vias. ………………………………………………..143
Um Brinde à Vida. ………………………………………………………………148
Capítulo XIII
Por Quem os Sinos Dobram. …………………………………………….152
O Despertar dos Sentidos. ………………………………………………..153
De Volta Para o Presente. ………………………………………………..156
Desvendando Mistérios. …………………………………………………..158
Capítulo XIV
A Fé que Move Montanhas. ………………………………………………..174
Fé é a Chave que Abre as Portas do Impossível ………………176
Capítulo XV
Tudo Pelo Ouro. …………………………………………………………………….184
Capítulo XVI
Déjà vu… ………………………………………………………………………………..206
Capítulo XVII
A Raposa de Olho no Galinheiro. ………………………………………220
Um Turbilhão de Emoções. …………………………………………………226
Capítulo XVIII
Envolto numa teia perigosa. ……………………………………………….231
Capítulo XIX
Surge um novo personagem… ……………………………………………..243
Capítulo XX
De Volta ao Paraíso na Terra. ……………………………………………..253
Capítulo XXI
Um Prêmio Inesperado. ……………………………………………………….263
Capítulo XXII
O amor está no ar, reacendendo velhas paixões. …………….269
O Acerto de Contas. ………………………………………………………………274
De Volta para a Região dos Lagos. ……………………………………….276
Capítulo XXIII
A Força da Fé Vence Tudo… ……………………………………………….278
A Troca. ………………………………………………………………………………..287
O Acordo… ……………………………………………………………………………295
Capítulo XXIV
Olhos Vigilantes ………………………………………………………………301
O “Presunto”. ……………………………………………………………………303
Enfim, nos braços da amada. …………………………………………305
Capítulo XXV
Hasta La Vista …………………………………………………………………….310
Capítulo XXVI
Sempre Foi Pelo Ouro… e Sempre Será… ……………………….315
Capítulo XXVII
Pelo seu Povo, Ele Atravessou Mares e Desertos. ……….324
Abrigando com amor… …………………………………………………….329
Capítulo XXVIII
Os Frutos da Árvore da Vida…………………………………………….330
A Vida continua pulsando nos corações… ……………………..333
Capítulo XXIX
Dançando Para não Dançar. ……………………………………………….334
Capítulo XXX
O Sonho de Uma Noite de Verão em Paris. ………………………337
Um, Dois, Três, Sentido!……………………………………………………….340
Apresentação
Escrever este livro foi um exercício de tempo e relutância. Quando, finalmente resolvi fazê-lo, não tinha a mínima ideia de chegar até aqui. A intenção era um Conto na linha de Dublinenses, de James Joyce, já que os locais de ambientações – a cidade de Dublin e o bairro onde eu morei e palco central das ações aqui narradas -, em muito se assemelham, resguardadas as devidas diferenças. Ao iniciar os escritos, citações e os demais elementos da obra, naturalmente, fui acobertado por uma nuvem de fantasmas, presos nas lembranças de outrora naquele rico cenário. Ao abordar o fato gerador da obra – fio condutor da narrativa -, fui perdendo as rédeas do fabulesco episódio. Por conseguinte, os espectros ambientais, assumiram o controle, demarcando territórios e pautando as ações. Solenemente, fui conduzido pelos atores dessa magistral peça, cujo anfiteatro que os abrigou, ainda resiste imponente e altivo, como testemunha perene dos eletrizantes episódios escritos pela vida.
De início, o livro dá a falsa impressão de um documentário. Mas, é puro cenário situado na história. Assim, como não há de se falar de uma pessoa sem descrevê-la, não há como contar uma história, sem situá-la no tempo e espaço. Daí, a razão das situações geográficas e temporais, com fatos que marcaram aquela fervorosa época. Após essas ilustrações, depois da página 20, a narrativa entra no cerne da questão – daquilo do que trata a obra. Que versa sobre a epopeia de uma família de agricultores do interior mineiro, que migra para o Rio de Janeiro. Aqui são recebidos e alocados por um rico comerciante, eivado de interesses sórdidos em relação à filha deles, Cristiane, de treze anos, envolta num intrincado contexto de complexo de Lolita dos anos 70.
A primeira parte trata dessa instigante trajetória. A segunda parte dá continuidade à saga familiar, com o pai, Othoniel, incomodado com a embaraçante situação, troca de emprego, indo trabalhar como motorista de carro-forte numa empresa de transporte de valores. Lá, conhece os seus “Midas”, o diretor de Logística, Júlio Salustiano e o seu Adjunto, “Genival” peça fundamental e determinante no desenrolar das ações que desemborcam num primoroso e intrincado projeto conector de vidas, paixões, e muitas aventuras – fundamentando com propriedade o título da obra.
Nota: esta é uma obra baseada em fatos reais, interposta de ficção, conforme a visão do Autor, cujos nomes de locais e pessoas foram trocados, bem como alguns fatos e situações que pudessem revelar suas identidades.
O Autor.
Primeira Parte
CAPITULO I
O COLISEU.
Ascensão e queda de um império criado pela arte e tombado pela vilania dos poderosos. O homem, o ser maior do Universo – com sua soberba imaginação – tudo pode conceber em conformidade com o seu caráter e moralidade.
Impávido como uma fortaleza medieval, o antigo prédio de dois pavimentos, erguido no começo do século XIX, imponentemente vestido de azul e branco, tal qual uma sentinela imóvel, observa a passagem do tempo que corre à sua frente pela grande rodovia de aço e concreto. Suas colunas de pedras, sustentáculos de suas paredes, emolduram um quadro vigoroso construído por mestres na arte da edificação. O tempo deixou sua marca secular em sua concepção arquitetônica, cujos desgastes das suas formas neoclássicas foram habilmente restaurados, resgatando, assim, a beleza forjada na rocha a amparar e acolher, em seu interior, os seres da criação divina que se aglomeravam todas as manhãs na disputa pelos saborosos alimentos saídos dos fornos abrasadores da sua producente fábrica de pães.
Por décadas, fora ele testemunha das vicissitudes temporais e palco natural dos atores da grande comédia humana, escrita pelo grande roteirista do universo. À sua volta, o progresso transfigurou o cenário quase bucólico e sombrio, características de área geopolítico-militar que, entrecortada por vias vicinais de grande movimento, interligou-se à artéria meca do poder empresarial e residencial da Zona Oeste do Rio de Janeiro, através do grande corredor expresso, cujo nome, foi herdado do evento olímpico ocorrido na cidade, no ano de 2016.
Em sombrio contraste com os tempos pretéritos, suas portas hoje jazem cerradas sobre o frio solo, encortinando um vibrante passado de efervescentes e calorosos sentimentos. A grande rodovia cortou a visão da igrejinha onde o sino badalava,
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anunciando a hora do ângelus, conclamando os fiéis a orar e purgar pelos seus atos pecaminosos – diante do velho vigário que tudo sabia de sua congregação – guardando consigo os segredos de confessionário, cujos medonhos atos, dos “respeitáveis” membros que formavam os pilares da sua Congregação, davam sentido aos dízimos mensais, compensando suas falhas mundanas e afrontas ao Santo Evangelho.
Ao lado da igrejinha e frontal para a rua, o imponente prédio de grande envergadura nas cores branca e verde água, construído em 1925, que abrigava o Cine São José – palco de eventos culturais e artísticos – há muito apagara seus refletores e emudecera os projetores. Por lá, desfilaram belos e épicos filmes: “O Ébrio”, “Os 10 Mandamentos”, “Quo Vadis”, “Sansão e Dalila”, “Ben Hur”, “O Candelabro Italiano” e bons faroestes com atores como John Wayne, Burt Lancaster, Kirk Douglas e tantos outros. Foi, por décadas, o ponto de encontro e de entretenimento dos moradores e das circunvizinhanças. Mas, como se deu com a maioria das salas de projeção pelo país, foi fechado, dando lugar ao saudosismo, ostracismo e à indiferença dos provedores da ignorância desumana a serviço da contracultura.
O outrora majestoso palco dos eventos aqui narrados era composto pelo prédio central onde funcionavam: padaria, escritório, centro de distribuição e o conjunto de prédios vizinhos, todos de propriedade de Elizeu Paschoal Feitosa. Homem de porte elegante, que se destacava pela estatura alta, em torno de 1.85m, cor branca, físico forte na faixa de 120kg, cabelos grisalhos e aparência germânica. Parecia estar na faixa etária dos seus vigorosos setenta e poucos anos. De trato sereno e calmo, chamavam-no de “Coronel” por ele afirmar ser oficial reformado do exército, fato que ninguém nunca atestou. Parecia ser mais uma forma usual e bajuladora das pessoas humildes para com os mais abastados do meio habitual.
Era ele, descendente da antiga família Paschoal Feitosa, oriunda de Portugal e que se instalara no Brasil no começo
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do século XIX, na antiga fazenda Sapopemba, onde fizeram fortuna com a produção de lavoura. Herdeiro da antiga e tradicional família, fixou-se no bairro do Realengo, onde prosperou e estendeu seus domínios até Cel. Magalhães Bastos, atuando nos segmentos fabril, alimentício e imobiliário. Estava quase sempre na companhia dos seus dois filhos homens, de idades medianas e de aparente sociabilidade, que dividiam, entre si, a administração dos negócios da família.
Nos anos 80, fui locatário de uma de suas lojas na exploração de uma pequena fábrica de roupas, vizinha à padaria. Por conseguinte, mantinha contato quase que diário com o meio em volta. Sendo natural expectador e testemunha ocular dos muitos eventos ocorridos naquele épico local – uma vez que, além de ali laborar – residia nas proximidades desde tenra idade.
Era bem conhecido nas redondezas, em razão do trabalho social que exercia junto à Igreja Matriz que frequentei na adolescência, vindo a integrar o grupo de trabalho e evangelização “Os Congregados Marianos” – da Ordem de Nossa Senhora Mãe de Jesus – compostos por jovens de ambos os sexos. Cuidávamos da interação com os serviços de apoio religiosos e mantenedores das obras sociais da comunidade.
Trabalhando, na época, num grande conglomerado de comunicação no Rio de Janeiro, era o encarregado dos serviços de relações públicas, tratando da divulgação e promoção dos eventos comunitários da paróquia, cujo maior evento anual era a Feira das Ruas, que transcorria nos redutos e entornos da Igreja Matriz e durava quatro semanas de festividades. O propósito era a venda das prendas, bebidas, doces e guloseimas, arrecadadas junto ao comércio local e, aos fiéis, cujo dinheiro era revertido para as obras de construção do Templo que, por motivos óbvios, nunca se findava. Essas feiras, juntamente com as quermesses nos últimos sábados e domingos de cada mês, proviam fundos que atendiam as despesas com a Igreja Matriz, a Casa Paroquial e as estripulias do velho vigário, que tinha por hábito visitar suas paroquianas mais carolas – carentes da palavra e do conforto “espirituoso” que emanava do garboso e envolvente visitante – mensageiro do Senhor.
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Por todos aqueles anos, eu nunca soube o quanto era arrecadado e os fins destinados. Éramos uma grande máquina de proventos e irradiação eucarística, verdadeiros “soldados” do Senhor, como dizia o velho pároco irlandês, Mr. John (que, em homenagem póstuma, deram seu nome à Estação Rodoviária local do BRT – Bus Rapid Transit) e seus agregados “bonvivants”, que se dividiam entre as atividades ecumênicas e as relações nem sempre ortodoxas para com seus pares de sexo oposto, da mesma irmandade e vizinhança beata, que se diziam servas do Senhor. Restou saber qual desses era melhor servido.
O GIRA MUNDO.
“Os ventos de uma nova era, surfando sobre os rios, mares e oceanos numa onda avassaladora de novos conceitos e mudanças por liberdades.”
Estávamos nos anos dourados das décadas de 60/70, anos das mudanças e acontecimentos que transmutaram os conceitos mundiais: nos Estados Unidos, o festival de Woodstock, ditando a contracultura do sexo, amor e rock and roll, The Beatles, Rolling Stones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, a ida do homem à Lua, escreviam uma nova página na história da humanidade. No Brasil, os “Anos Rebeldes”, o golpe militar, com o famigerado AI-5 ditando o autoritarismo ditatorial militar e acendendo as chamas de uma nova consciência nacionalista nas lutas pela democracia, vindo a culminar com a promulgação da “Nova Constituição Cidadã de 1988”.
Na telinha preto e branca, a TV Globo da família Marinho, com o “plim plim” anunciando: “- No ar, o Jornal Nacional”, marco do telejornalismo brasileiro. Surgem os reis da comunicação: $ilvio $antos, – o ex-camelô, Senor Abravanel – com o seu “sorriso Colgate”, enche o Baú da Felicidade. O velho palhaço Abelardo “Chacrinha” Barbosa, balançando a pança e
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levantando a massa, pergunta a plenos pulmões; “- Vai para o trono ou não vai.” Nas telinhas ovais e quadradas, a vida imita a arte nos capítulos das novelas impondo um novo regramento familiar, trocando a solene mesa de jantar pelo velho sofá da sala.
É a televisão se impondo como importante elo difusor da globalização mundial. Na música, Roberto Carlos ao volante do seu “calhambeque”, “Manda Tudo Para o Inferno” e instaura o movimento da Jovem Guarda. O “Mais Que Nada”, de Sérgio Mendes, mostra ao mundo a ginga brasileira. A Bossa Nova, de Tom Jobim & Vinicius de Morais, bem como o Tropicalismo de Caetano, Gal e Gil, dão um novo tom, colocando o Brasil no magistral Show Business Internacional.
Salve os festivais musicais da antiga TV Record, revelando astros e estrelas, abrilhantando o cenário musical. Ah, que saudade daqueles tempos! Sem Lava a Jato, milícias, balas perdidas, saidinha de bancos, AIDS, COVID-19 e outras desgraças que assolam a humanidade. “Essas recordações me matam…” “Recordar o passado é viver o presente”. Presente este, que somente nos permite viver o hoje, relembrar o passado e sonhar com o futuro. São estes os três componentes de toda uma vida. Embora um deles – futuro – para alguns nem sempre se insira nessa tríade temporal.
ABREM-SE AS CORTINAS DO GRANDE SHOW DA VIDA.
“Descortinando o cenário montado pelas mentes criativas em atuações pragmáticas.”
Neste Palco Iluminado – cenário efervescente dos acontecimentos dessa narrativa – um dos quatro elementos da natureza crepita brasas fumegantes com sua imensa bocarra expelindo grandes fornalhas de pães, cujo cheiro inebriante aguça e estimula os sentidos da “mãe gula”. Freguês habitual da padaria, já que, além do café matinal, também era admirador voraz dos
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seus bolos e lanches que valiam por cada centavo, por diversas vezes tive a atenção despertada por alguns fatos e incidentes que passavam despercebidos aos olhos dos demais fregueses e frequentadores menos atentos.
Havia, dentre seus funcionários, uma família composta pelos pais e quatro filhos; sendo dois casais, cuja idade dos mais velhos beirava entre doze a treze anos e os mais novos, em torno de cinco a seis anos. Todos franzinos, brancos, sardentos e desnutridos, de aspecto taciturno e retraídos. Porvárias vezes, observei que a simples aproximação de pessoas estranhas ao seu meio, causavalhes medo e desconfiança. Ao menor sinal, saíam correndo para dentro da casa, através de um beco que levava a uns humildes casebres nos fundos das lojas contíguas à padaria. Os pais eram de procedência rural e viviam no interior mineiro. Ambos Carmenses, naturais de Carmo de Minas. A mãe, Altina, com trinta anos e o pai, Othoniel, com trinta e cinco anos, haviam migrado para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. A mulher trabalhava como ajudante geral, tipo “faz-tudo”, cuidando dos serviços de limpeza da padaria; e o marido como ajudante de padeiro e vendedor ambulante nas cercanias, duas vezes ao dia, pelas manhãs e pelas tardes, empurrando, sobre uma velha bicicleta, um balaio de pães produzidos nas frias madrugadas nos abrasadores fornos. Sua estridente buzina “fon-fon” anunciava aos moradores das ruas vizinhas a chegada dos primeiros alimentos do dia.
A VIAGEM.
“A maior aventura de um ser humano.” (Mário Quintana)
A vinda deles para o Rio de Janeiro mais parece um conto de fadas às avessas. Agregados de uma família de sitiantes na zona rural mineira, sobreviviam produzindo agricultura de subsistência como “meeiros”. Sem apoio e entregues à própria sorte, mudaram-se para Nova Andradina, Mato Grosso do Sul,
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aonde penaram por anos e lá tiveram o primeiro casal de filhos, Othon e Cristiane. Lá, trabalhavam e residiam numa rudimentar pousada – tipo hotel-fazenda nos arredores da cidade – como domésticos em condições de semiescravatura, trabalhando doze horas por dia praticamente em troca de moradia e comida. Algum dinheiro, somente nas grandes temporadas, por compaixão de alguns hóspedes. Lá, conheceram o “Coronel” Elizeu e seus familiares que estavam a passeio por aquelas bandas. A esposa deste, Dona Celeste, uma senhora de sessenta e oito anos, durante a estadia, teve a atenção despertada pela presença humilde e sempre solícita da prestativa serviçal, Altina. Travando conversa com eles, soube das suas rudimentares condições e do desejo de se mudarem para uma vida melhor. “Compadecidos”, propuseram trazê-los em sua companhia na condição de sitiantes, numa de suas moradias de campo no Rio de Janeiro.
LAR, DOCE LAR.
“Você é seu próprio lar”. (Francisco El Hombre)
Chegando no Estado do Rio de Janeiro, foram assentados numa pequena chácara da família, nos arredores do Município de Itaguaí, cidade portuária na Costa Verde, grande centro produtor, naquela época, de frutas cítricas – laranjas, tangerinas, limões e outros. De localização aprazível, a chácara media dois alqueires de boa terra e verdes arbustos. Uma casa sede em estilo colonial, usada pela família como casa de campo, dava-lhe ares de poder e altivez.
Um pouco mais afastado, um modesto casebre fora-lhes cedido como moradia. Em sua volta, um quintal malcuidado e tomado por gramíneas e ervas daninhas, sufocava o florescer da vida campestre, usado como pasto por alguns animais equinos e caprinos. Um curioso vira-latas, balançando o rabo, se encarregou das boas-vindas. O novo panorama, vislumbrado pelos novos moradores, formava um vivo quadro emoldurado pela
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natureza, sinalizando novos tempos, de paz, amor e esperança. Em questão de dias, o cenário, antes desprovido de maiores cuidados, resplandeceu a olhos vistos – o mato e as ervas daninhas foram substituídos por gramas e flores, formando belos jardins e verdes pastos. A modesta casa foi por eles reformada com o material ofertado pelos proprietários, que viram ali uma oportunidade de se beneficiarem da mão-de obra boa e gratuita, matando assim dois coelhos com uma só cajadada, como diz o ditado popular e a soberba dos necessitados de ética e brios.
O novo visual bem cuidado da antiga chácara arrancou do abastado “Coronel” e de sua esposa suspiros de aprovação e gentis reconhecimentos. Dali em diante, além de moradia e dos mantimentos para sobrevivência, a família passou a fazer jus a um salário, mais um percentual da produção dos frutos colhidos; condição nunca antes alcançada e que muito os orgulhava e motivava sobremaneira. Infelizmente, meia década depois, a chácara foi infestada por uma onda de pragas que dizimou por completo as plantações, devastando os pomares e destruindo toda a vida cuidada ao longo dos anos. Prostrados pelo fatídico evento, os proprietários decidiram vendê-la para um vizinho criador de vacas leiteiras e alocando a família de sitiantes numa casa de fundos, vizinha da padaria de sua propriedade num subdistrito de Realengo, nas cercanias da Vila Militar, conhecida como Cel. Magalhães Bastos, bairro limitado com Deodoro e Sulacap, palco e teatro deste nosso percurso narrativo.
A HERANÇA MALDITA.
“A pequena novidade que cada homem extrai da vida custa muito caro e é a única herança que ele poderá deixar.” (Ernest Hemingway)
Desde a estadia na antiga chácara produtora de frutas, Othoniel já vinha apresentando um grave quadro asmático que lhe provocava falta de ar. Por diversas vezes, fora conduzido aos postos de saúde, mas nunca fora detectada a causa, nem tampouco, recebera o devido tratamento. Tratava-se com “garrafadas” e chás de plantas da dita medicina popular; mas tudo que obtinha, eram pequenos intervalos de melhoras que mascaravam algo grave que minava sua combalida saúde, dia após dia. Os suores e o cansaço se traduziam nas profundas rugas do rosto e na palidez do frágil e esquelético corpo que, por vezes, era sacudido por convulsivas tosses que o deixavam penosamente em prostração.
O trabalho na padaria, embora menos penoso do que o na roça, era impróprio ao seu atual estado de saúde. Em razão disso, foi afastado dos serviços e tratado por um longo tempo no Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes. Na padaria, foi substituído pelo filho mais velho, Othon. Ao cabo de um ano de tratamento, obteve a cura definitiva. A causa tinha sido envenenamento por herbicidas, resultado de anos de manuseio e pulverização de agrotóxicos sem os devidos cuidados e proteção.
Após se restabelecer, Othoniel dedicou-se em adquirir conhecimentos – se alfabetizando e se profissionalizando como motorista de veículos pesados, já que tinha experiência prática, pelos anos que trabalhara na agricultura dirigindo caminhões, tratores e máquinas de carga. Com a Carteira Nacional de Habilitação em mãos, passou a trabalhar como motorista da padaria por alguns anos, fazendo entregas e todas atividades afins. Como gozava de regalias, tinha acesso ao veículo de trabalho – uma caminhonete Ford Furglaine, que usava para o seu bel-prazer e de sua família, fora do expediente e nos fins de semana.
O SENTINELA SEMPRE ALERTA.
“Máscaras escondem rostos e feições, mas nunca a desfaçatez de um olhar.”
As mudanças fizeram providencial diferença na vida da família, com os pais, Othoniel e Altina, sempre atentos aos
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acontecimentos à sua volta. Desde que aceitaram a oferta de mudança para o Rio de Janeiro e aqui chegaram, ficaram sempre alertas aos sinais e a tudo que dizia respeito aos seus filhos. Como bons mineiros, ouviam muito e falavam pouco. Othoniel combinara com a esposa que ele proveria o sustento de todos, custasse o que custasse, e ela se encarregaria de orientar e conduzir a criação e formação dos filhos. Como já previra, por várias vezes alertou a mulher, dizendo que aquela beneficiação tinha alguma coisa por trás – coisa esta, que a cada dia ficava mais clara que água de fonte. Como pai, vivia entre a cruz e a espada. Tinha plena consciência da vital importância do apoio do velho matreiro para com sua família – tudo que tinham e conseguiram até ali, tinha sido graças a ele; mas, dentro de si, algo o incomodava. Sabia que tudo aquilo tinha um preço, cuja moeda de troca não estava em nenhuma registradora ou caixa de banco e, sim, dentro do seu lar, no seio da sua própria família.
Certa vez, em confidências com a mulher, ouviu esta dizer que: “entre os males de porta fora, prefiro ficar com os males de porta dentro. O diabo está em todo lugar; lá fora a gente se expõe, aqui a gente se protege. Todo mundo tem uma cruz para carregar, fazê-la mais leve ou mais pesada é uma questão de saber escolher a madeira.” Aquelas palavras, vindas de uma pessoa tão humilde e sofrida como ela, calaram fundo em sua alma, passando uma mensagem de confiança e segurança que lhe devolveu as esperanças e o foco em prosseguir nos planos que há muito vinha traçando.
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CAPÍTULO II
CONDUZINDO O SEU PRÓPRIO DESTINO.
“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” (Geraldo Vandré)
Othoniel, incomodado com os rumores que sopravam em seus ouvidos, decidiu, em comum acordo com os familiares, trabalhar noutro lugar, fora daquele ambiente maledicente. Em resposta a um anunciante que o selecionara, compareceu na TransValore S.A. – Empresa Transportes de Valores e Segurança, situada no bairro de São Cristovão, Rio de Janeiro. Após um período de testes e treinamento, foi efetivado como motorista de carro-forte, fazendo parte da “Equipe Bravo 1”.
Sua nova rotina, aos poucos foi…

